Do povoado Enforcados a Nossa Senhora das Dores: a origem do nome
Nos confins do interior sergipano, o que hoje chamamos de Nossa Senhora das Dores começou como um pequeno aglomerado de casas de taipa conhecido por um nome sombrio: Povoado Enforcados. A denominação não veio de lendas ou de execuções públicas, mas de uma prática colonial corriqueira. Quando algum escravo fugido ou indígena resistia à captura, era comum amarrá-lo em árvores altas à beira dos caminhos como aviso. Os moradores da região, ao passarem, diziam que iam “pelos enforcados”. O nome pegou.
Em 1606, o capitão-mor Cristóvão de Barros concedeu as primeiras sesmarias na região do rio Cotinguiba. Terras férteis e próximas ao rio atraíram fazendeiros que plantavam cana e criavam gado. Aos poucos, o povoado ganhou uma capela dedicada a Nossa Senhora das Dores, padroeira que consolava os sofrimentos da população escravizada e dos colonos que viviam entre secas e ataques indígenas.

A resistência do cacique Serigy
Antes da chegada definitiva dos portugueses, a região era habitada pelos índios serigys, liderados pelo cacique Serigy. Conhecido por sua astúcia e coragem, ele organizou várias emboscadas contra as expedições que desciam o rio. Durante anos, o cacique impediu o avanço das sesmarias, queimando roças e libertando escravos. Só após sua morte, em meados do século XVII, é que o povoado conseguiu se consolidar de fato. Muitos historiadores locais defendem que o nome “Sergipe” deriva justamente de “Serigy”, uma homenagem involuntária ao líder que tanto combateu a colonização.
A transformação do nome
Com o crescimento da capela e a devoção crescente à imagem de Nossa Senhora das Dores, os moradores começaram a abandonar o nome Enforcados, considerado de mau agouro. Por volta de 1750, documentos oficiais já registravam o lugar como “Nossa Senhora das Dores do Povoado dos Enforcados”. No século XIX, quando a vila foi elevada a freguesia, o nome Enforcados desapareceu por completo dos registros eclesiásticos e cartoriais.
A padroeira se tornou o centro da identidade local. Todos os anos, a festa da padroeira reúne milhares de devotos que caminham em procissão até a igreja matriz, reafirmando o laço entre fé e superação das dificuldades do sertão. O que era sinal de violência virou símbolo de esperança.
Como o povoado virou município
Em 1890, com a Proclamação da República, o distrito ganhou autonomia política. A Lei Estadual nº 98, de 1892, finalmente emancipou o município, oficializando o nome Nossa Senhora das Dores. Hoje, com cerca de 26 mil habitantes, a cidade mantém viva a memória de suas origens, mesmo que poucos saibam o significado real do antigo topônimo.
- As sesmarias de 1606 marcaram o início da ocupação portuguesa na Cotinguiba
- O cacique Serigy resistiu por décadas contra as bandeiras de Cristóvão de Barros
- A devoção a Nossa Senhora das Dores substituiu gradualmente o nome Enforcados
- A emancipação política ocorreu em 1892, selando a nova identidade
| Período | Evento principal | Nome predominante |
|---|---|---|
| 1606 | Doação das primeiras sesmarias | Povoado Enforcados |
| 1650-1700 | Morte do cacique Serigy e consolidação do povoado | Enforcados / Capela das Dores |
| 1750 | Crescimento da devoção mariana | Nossa Senhora das Dores |
| 1892 | Emancipação política | Nossa Senhora das Dores |
A história de Nossa Senhora das Dores mostra como um lugar pode renascer do próprio nome. O que começou marcado pela dor e pelo medo transformou-se, pela fé e pela persistência de seus habitantes, em um município acolhedor que carrega no título sua maior devoção. Quem passa pela praça central ainda sente, no ar quente do sertão, o eco dos que construíram essa terra passo a passo, entre rezas e roças, esquecendo aos poucos o antigo caminho dos enforcados.


