Coronelismo e famílias fundadoras: poder e política na Dores de antigamente
Nos sertões de Sergipe, o coronelismo não foi apenas um sistema político: foi um modo de vida que moldou cidades inteiras. Em Nossa Senhora das Dores, esse fenômeno encontrou terreno fértil entre o final do século XIX e meados do XX. Os coronéis, geralmente grandes proprietários de terra, exerciam poder econômico, judicial e eleitoral, mantendo uma rede de lealdades que ia do voto ao compadrio.
As famílias fundadoras da antiga Dores do Rio Real ocupavam o centro desse tabuleiro. Elas controlavam as melhores terras, o comércio local e os cargos públicos, transformando o município num feudo familiar disfarçado de república. Seus nomes ainda ecoam nas ruas, nas fazendas e nas conversas de quem conhece a história mais antiga da cidade.

A era dos coronéis de farda e gibão
O coronelismo sergipano tinha feições próprias. Diferente do modelo nordestino mais violento, em Dores o poder era exercido com elegância rural: almoços longos na fazenda, casamentos arranjados entre clãs e nomeações estratégicas para juiz de paz e delegado. O coronel decidia quem votava, quem recebia emprego público e até quem podia abrir negócio na rua principal. Entre 1890 e 1930, praticamente todos os prefeitos e vereadores saíam de um punhado de sobrenomes.
As principais famílias que marcaram a Dores antiga
Três linhagens se destacavam pelo controle político e social. Elas se alternavam no poder, ora aliadas, ora rivais, mas sempre mantendo o jogo dentro do mesmo círculo. Seus membros eram ao mesmo tempo fazendeiros, políticos, médicos e donos de armazéns. A população via neles uma espécie de aristocracia natural.
- Família Silva Santos: donos de vastas terras no rumo de Itabaianinha, controlaram a prefeitura por quase duas décadas. O coronel Manoel Silva Santos era temido e respeitado; sua casa na praça ainda existe.
- Família Oliveira Ramos: fortes no comércio e na pecuária, colocaram juízes, promotores e até um deputado estadual. Eram conhecidos pela habilidade de costurar alianças com grupos de outras cidades.
- Família Cardoso Dantas: mais recentes, mas agressivos na expansão de terras e influência. Dominaram o período de 1920 a 1945, quando o voto aberto ainda decidia quase tudo.
| Família | Principal base econômica | Período de maior influência | Cargos mais ocupados |
|---|---|---|---|
| Silva Santos | Algodão e gado | 1895-1918 | Prefeito e juiz de paz |
| Oliveira Ramos | Comércio e criação | 1908-1932 | Deputado e promotor |
| Cardoso Dantas | Terra e política | 1920-1945 | Prefeito e vereador |
Heranças que ainda se veem
Quando a Era Vargas e a redemocratização começaram a enfraquecer o coronelismo clássico, as famílias fundadoras já haviam deixado marcas profundas. Muitas ruas, escolas e até o traçado urbano atual carregam o nome ou a influência delas. O clientelismo, o compadrio e a concentração de poder local não desapareceram de uma hora para outra; apenas se modernizaram.
Hoje, quando um doreense mais velho conta que “fulano é filho de coronel”, não está falando apenas de patente da Guarda Nacional. Está lembrando uma época em que o poder era visível, pessoal e quase hereditário. Entender esse passado ajuda a compreender por que certas famílias ainda têm tanto peso na política e na vida social de Nossa Senhora das Dores, mesmo num Brasil do século XXI.
A história do coronelismo doreense não é só sobre mandonismo. É sobre como um punhado de famílias construiu a cidade que conhecemos, com suas virtudes e seus limites. Olhar para trás com honestidade é o primeiro passo para construir um futuro menos dependente de velhas hierarquias.


