Nossa Senhora das Dores · Sergipe · 2026Nossa Senhora das Dores · Sergipe
Nossa História

O ciclo do gado e a formação dos povoados no território dorense

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Nos sertões do rio Real, o gado não foi apenas um animal de criação: foi o verdadeiro motor da ocupação humana. Desde o final do século XVII, as primeiras sesmarias concedidas pela Coroa portuguesa atraíram fazendeiros que buscavam pastagens naturais para seus rebanhos. O que hoje chamamos de território dorense era então uma vastidão de caatinga e tabuleiros, cortada por riachos sazonais, onde o boi se adaptava melhor que qualquer outra atividade econômica.

A pecuária extensiva exigia grandes extensões de terra e pouca mão de obra fixa. Por isso, as fazendas surgiam distantes umas das outras, ligadas por caminhos de boiadas que, com o tempo, se transformaram em picadas e depois em estradas. Foi ao longo dessas rotas que nasceram os primeiros aglomerados humanos, muitos deles em torno de capelas rústicas erguidas pelos próprios criadores.

Rebanho de gado na caatinga sergipana, representando o ciclo pecuário que formou os povoados dorenses

A marcha do gado e o surgimento dos currais

Os criadores vinham principalmente da Bahia e de Pernambuco, trazendo o sistema de criação já testado no Recôncavo e no sertão pernambucano. Soltavam o gado solto nos “campos gerais” e, a cada seis meses, realizavam as “vaquejadas” para marcar o gado e separar os bezerros. Muitos vaqueiros, ao final do contrato de três ou quatro anos, recebiam um lote de terra e algumas cabeças de gado como pagamento. Esses homens tornaram-se os primeiros moradores fixos da região.

Com o aumento dos rebanhos, surgiram os currais permanentes. Em torno deles, pequenas roças de mandioca, milho e feijão garantiam a subsistência. Assim, o que começou como estrutura temporária de manejo de gado foi se convertendo, lentamente, em núcleo de povoamento.

Da capela ao arraial: o papel das irmandades

A devoção a Nossa Senhora das Dores, trazida pelos primeiros criadores, foi o elemento aglutinador. A construção da capela inicial, por volta de 1750, atraiu moradores de fazendas distantes que vinham para as festas anuais. Com o tempo, feiras de gado passaram a coincidir com as romarias, criando um ciclo econômico e religioso que fortalecia o povoado.

Durante o século XIX, com a decadência da mineração no interior e o crescimento da demanda por carne no litoral, o ciclo do gado viveu seu apogeu. Dores se consolidou como entreposto comercial, onde se negociavam bois, couros e charque. Muitas famílias que enriqueceram com o comércio de gado construíram as primeiras casas de taipa e, mais tarde, de tijolo, definindo o traçado das ruas que ainda hoje formam o centro histórico.

Legado visível até hoje

O modelo de ocupação baseado na pecuária deixou marcas profundas na cultura dorense. A linguagem, a culinária, as festas e até o jeito de lidar com a seca carregam a herança dos antigos vaqueiros. Muitas propriedades rurais ainda mantêm os limites originais das antigas sesmarias, e o gado continua sendo parte importante da economia local, embora agora de forma mais intensiva e tecnificada.

Período Evento principal Impacto no povoamento
Final séc. XVII Concessão das primeiras sesmarias Início da ocupação esparsa por fazendas de gado
Meados séc. XVIII Construção da primeira capela Nascimento do arraial em torno da devoção
Século XIX Apogeu do comércio de couros e charque Consolidação urbana e formação do núcleo comercial
  • O vaqueiro recebia, ao fim do contrato, quatro crias por ano como pagamento de serviços
  • As boiadas seguiam para o litoral por caminhos que hoje são as rodovias SE-160 e SE-270
  • A feira de gado de Nossa Senhora das Dores era, no século XIX, uma das mais importantes do interior sergipano

Entender o ciclo do gado é, portanto, compreender a própria gênese de Dores. Sem o boi, não haveria povoado. Sem o povoado, não existiria a cidade que hoje carrega com orgulho o título de “Princesa do Sertão”.