O ciclo do gado e a formação dos povoados no território dorense
Nos sertões do rio Real, o gado não foi apenas um animal de criação: foi o verdadeiro motor da ocupação humana. Desde o final do século XVII, as primeiras sesmarias concedidas pela Coroa portuguesa atraíram fazendeiros que buscavam pastagens naturais para seus rebanhos. O que hoje chamamos de território dorense era então uma vastidão de caatinga e tabuleiros, cortada por riachos sazonais, onde o boi se adaptava melhor que qualquer outra atividade econômica.
A pecuária extensiva exigia grandes extensões de terra e pouca mão de obra fixa. Por isso, as fazendas surgiam distantes umas das outras, ligadas por caminhos de boiadas que, com o tempo, se transformaram em picadas e depois em estradas. Foi ao longo dessas rotas que nasceram os primeiros aglomerados humanos, muitos deles em torno de capelas rústicas erguidas pelos próprios criadores.

A marcha do gado e o surgimento dos currais
Os criadores vinham principalmente da Bahia e de Pernambuco, trazendo o sistema de criação já testado no Recôncavo e no sertão pernambucano. Soltavam o gado solto nos “campos gerais” e, a cada seis meses, realizavam as “vaquejadas” para marcar o gado e separar os bezerros. Muitos vaqueiros, ao final do contrato de três ou quatro anos, recebiam um lote de terra e algumas cabeças de gado como pagamento. Esses homens tornaram-se os primeiros moradores fixos da região.
Com o aumento dos rebanhos, surgiram os currais permanentes. Em torno deles, pequenas roças de mandioca, milho e feijão garantiam a subsistência. Assim, o que começou como estrutura temporária de manejo de gado foi se convertendo, lentamente, em núcleo de povoamento.
Da capela ao arraial: o papel das irmandades
A devoção a Nossa Senhora das Dores, trazida pelos primeiros criadores, foi o elemento aglutinador. A construção da capela inicial, por volta de 1750, atraiu moradores de fazendas distantes que vinham para as festas anuais. Com o tempo, feiras de gado passaram a coincidir com as romarias, criando um ciclo econômico e religioso que fortalecia o povoado.
Durante o século XIX, com a decadência da mineração no interior e o crescimento da demanda por carne no litoral, o ciclo do gado viveu seu apogeu. Dores se consolidou como entreposto comercial, onde se negociavam bois, couros e charque. Muitas famílias que enriqueceram com o comércio de gado construíram as primeiras casas de taipa e, mais tarde, de tijolo, definindo o traçado das ruas que ainda hoje formam o centro histórico.
Legado visível até hoje
O modelo de ocupação baseado na pecuária deixou marcas profundas na cultura dorense. A linguagem, a culinária, as festas e até o jeito de lidar com a seca carregam a herança dos antigos vaqueiros. Muitas propriedades rurais ainda mantêm os limites originais das antigas sesmarias, e o gado continua sendo parte importante da economia local, embora agora de forma mais intensiva e tecnificada.
| Período | Evento principal | Impacto no povoamento |
|---|---|---|
| Final séc. XVII | Concessão das primeiras sesmarias | Início da ocupação esparsa por fazendas de gado |
| Meados séc. XVIII | Construção da primeira capela | Nascimento do arraial em torno da devoção |
| Século XIX | Apogeu do comércio de couros e charque | Consolidação urbana e formação do núcleo comercial |
- O vaqueiro recebia, ao fim do contrato, quatro crias por ano como pagamento de serviços
- As boiadas seguiam para o litoral por caminhos que hoje são as rodovias SE-160 e SE-270
- A feira de gado de Nossa Senhora das Dores era, no século XIX, uma das mais importantes do interior sergipano
Entender o ciclo do gado é, portanto, compreender a própria gênese de Dores. Sem o boi, não haveria povoado. Sem o povoado, não existiria a cidade que hoje carrega com orgulho o título de “Princesa do Sertão”.


