A Seleção das Quinas: história e identidade de Portugal
Há equipas que representam um país e depois há a Seleção das Quinas, que em Portugal é quase um membro da família. Quando joga, o país pára, as esplanadas enchem-se de bandeiras e gerações inteiras discutem o onze como se o tivessem escolhido. A história dessa equipa é a história de como um país pequeno aprendeu a sonhar em grande.
O ponto mais alto dessa história tem data e lugar: 10 de julho de 2016, Saint-Denis, a final do Europeu vencida contra a França anfitriã. Mas a caminhada até essa noite demorou décadas, passou por Eusébio, por desilusões em casa e por gerações que abriram o caminho sem levantar o troféu.

Porque se chama Seleção das Quinas
O nome vem do símbolo que a equipa leva ao peito: as cinco quinas, os cinco pequenos escudos azuis dispostos em cruz no brasão de Portugal, que representam as cinco feridas de Cristo segundo a tradição e acompanham a bandeira nacional desde os primeiros tempos da monarquia. Chamar à equipa Seleção das Quinas é chamá-la pelo escudo, e não há português que precise de legenda.
As cores são as da bandeira: vermelho e verde, com o equipamento principal tradicionalmente encarnado. Quando a seleção joga em casa, o Estádio Nacional do Jamor, nos arredores de Lisboa, mantém um lugar especial no imaginário, palco histórico de finais e de grandes noites do futebol português.
As primeiras décadas e a afirmação internacional
A seleção portuguesa jogou o seu primeiro encontro oficial em 1921, mas durante décadas viveu à sombra das potências europeias, falhando mais fases finais do que as que alcançou. A equipa era respeitada pelo talento individual, mas faltava-lhe a consistência coletiva para marcar presença regular nos grandes torneios.
Tudo começou a mudar na segunda metade do século XX, quando a qualidade da formação portuguesa se traduziu em equipas capazes de discutir jogos com qualquer adversário. A presença em fases finais deixou de ser exceção para se tornar hábito, e o país habituou-se a ver a sua equipa entre as melhores do mundo.
1966: o Mundial que apresentou Eusébio ao mundo
O primeiro grande marco chegou no Mundial de 1966, em Inglaterra. Com Eusébio em estado de graça, Portugal chegou às meias-finais e terminou em terceiro lugar, depois de uma campanha que incluiu uma reviravolta histórica contra a Coreia do Norte nos quartos de final, com quatro golos do Pantera Negra. Eusébio foi o melhor marcador do torneio, e Portugal voltou para casa com um estatuto novo.
Essa equipa ficou na memória como a primeira geração de ouro, e durante muito tempo o terceiro lugar de 1966 foi o melhor resultado da história da seleção em Mundiais, um marco que as gerações seguintes perseguiram sem ultrapassar.
Do Euro 2004 à conquista de 2016
Em 2004, com o Europeu jogado em casa, Portugal chegou à final e perdeu contra a Grécia numa das noites mais dolorosas da história da seleção. A lágrima de um jovem Cristiano Ronaldo no fim desse jogo tornou-se imagem de época, e a promessa de que aquele grupo ainda havia de ganhar algo ficou no ar durante doze anos.
A promessa cumpriu-se em Paris. No Euro 2016, Portugal atravessou o torneio com pragmatismo e alma, perdeu Ronaldo por lesão no início da final contra a França e encontrou em Éder o herói improvável: o golo no prolongamento que deu a Portugal o seu primeiro grande título internacional. O país celebrou como nunca, e a Seleção das Quinas deixou de ser a equipa dos quase.
Os marcos de uma caminhada
| Competição | Ano | Marco |
|---|---|---|
| Mundial | 1966 | Terceiro lugar, com Eusébio como melhor marcador |
| Campeonato da Europa | 1984 | Presença nas meias-finais em França |
| Campeonato da Europa | 2004 | Final em casa, perdida para a Grécia |
| Mundial | 2006 | Quarto lugar na Alemanha |
| Campeonato da Europa | 2016 | Campeã europeia em Paris |
| Liga das Nações | 2019 | Vencedora da edição inaugural, em casa |

Depois de 2016, a seleção confirmou que o título não tinha sido um acaso: venceu a edição inaugural da Liga das Nações em 2019, com a fase final jogada em casa, e manteve-se durante anos no lote das melhores seleções do ranking mundial. A convocatória passou a ser um acontecimento mediático por si só, e a discussão sobre quem deve jogar tornou-se um dos desportos nacionais mais praticados, do café ao estúdio de televisão.
A identidade para lá do resultado
O que define a Seleção das Quinas não é só o palmarés, é a relação com o país. Alguns traços que atravessam todas as gerações:
- A ligação às comunidades emigrantes, que enchem estádios em França, na Suíça ou no Luxemburgo como se fosse em casa.
- O papel da seleção como ponto de encontro de benfiquistas, portistas e sportinguistas, rivais durante a época e irmãos no verão.
- A memória dos heróis passados, de Eusébio a Figo, evocada sempre que um novo talento veste a camisola.
- A convicção, hoje fundamentada, de que Portugal pode ganhar a qualquer equipa do mundo.
Do Jamor a Saint-Denis, a história da Seleção das Quinas é a de um país que aprendeu a acreditar. No Visitedores contamos essa história em capítulos: as gerações, os grandes jogos e a formação que alimenta o sonho de cada novo verão.